FAQ


Qual é a diferença entre Guaraná e Waraná?
Na fala comum, "guaraná" é o termo que se usa para fazer referência à Paullinia cupana sórbilis e à sua semente comestível. Isso em todos os idiomas do mundo onde o Guaraná é conhecido. Guaraná vem porém do português, e é uma adaptação fonética da palavra Waraná, que pertence à língua Sateré-Mawé, porqué foram os Sateré-Mawé que identificaram esta espécie. No final do século XIX, caboclos que tinham contato, e as vezes parentesco, com os Sateré-Mawé, começaram a cultivar essa planta imitando de forma mais ou menos adequada os Sateré-Mawé. Mas no século atual, o agronegócio impõe cada vez mais aos agricultores de usar sementes clonadas produzidas pela agroindústria, e de tratar essas sementes clonadas com tecnologias de cultivo e beneficiamento que desrespeitam a planta. Os Sateré-Mawé se recusaram de aceitar clones e, sozinhos, defenderam a reprodução sexuada da planta, não somente para preservar o banco genético e o consumo tradicional, mas também em função de garantir a conservação de todas as virtudes da espécie no produto comercial deles, na maioria dos casos rotulado como "waraná", e de toda maneira sempre apresentado ao consumidor, desde que possível, explicando o contexto cultural de origem. Por causa disso, está cada vez mais se afirmando na linguagem comum uma distinção entre Waraná e Guaraná que é reflexo da diferencia fundamental entre o Waraná cultuado pelos Sateré-Mawé e o Guaraná cultivado conforme às regras ditadas pela agroindústria: a palavra "waraná", cada vez mais tanto na língua portuguesa que em outros idiomas, se refere ao guaraná nativo, que salvaguarda intacto o patrimônio genético da espécie selvagem; a palavra "guaraná", pelo contrário, se refere a guaraná clonado ou de toda maneira oriundo de populações geneticamente empobrecidas, selecionado conforme aos interesses econômicos da agroindústria.
O último abrigo do waraná no mundo inteiro é o “Sateré-Mawé éco ga'apypiat Waraná mimotypoot sése”, ou seja, o  "Santuário ecológico e cultural do guaraná nativo dos Sateré-Mawé".

O que é o "Santuário ecológico e cultural do guaraná nativo dos Sateré-Mawé"?
O "Santuário ecológico do guaraná nativo", é o único banco genético in situ do guaraná existente no mundo inteiro, e corresponde à Terra Indígena Andirá-Marau, patrimônio da União e território da Nação Sateré-Mawé. O Santuário cultural do Waraná é o local em que a comunidade Sateré-Mawé salvaguarda e pratica os conhecimentos ancestrais sobre essa planta, que queremos sejam reconhecidos como patrimônio cultural imaterial da humanidade.
A definição "Santuário ecológico e cultural do guaraná nativo dos Sateré-Mawé" traduz o conceito de “Sateré-Mawé éco ga'apypiat Waraná mimotypoot sése” formulado pelo Tuxaua geral do Andirá e fundador do CGTSM, Zuzu em Miquiles em 1999, junto com o tuxaua geral do Marau da época, Cazuza de Oliveira, em Umirituba em 1999, para significar as raízes e fundamentos do "Projeto Guaraná".

O que é o "Projeto Guaraná"?
O "projeto Guaraná", ou "projeto Waraná", è o projeto integrado de etnodesenvolvimento ecologicamente sustentável da Nação Sateré-Mawé.  "Projeto Guaraná", "Projeto Waraná" e "Projeto integrado de etnodesenvolvimento" são sinônimos.

O que que significa "Projeto Autonomo Integrado de Eco-etnodesenvolvimento Sateré-Mawé" (PAIESM)?

Projetar é imaginar um futuro. Se desenvolver é o que faz uma semente quando se transforma em planta. Aqui o que se desenvolve é uma etnia: a etnia Sateré-Mawé. Assim, ela não vai se desenvolver como uma planta qualquer, mas a partir do seu próprio código genético: os fundamentos culturais e epistemológicos que a caraterizam. Esses fundamentos determinam sua maneira de aparecer, ou seja sua identidade, assim como a forma em que suas raízes tiram alimento da terra: a Terra indígena Andirá-Marau. Dizer que esse desenvolvimento deve ser integrado quer dizer não somente que cada aspecto do desenvolvimento  (econômico, social, cultural, ecológico, ambiental, tecnológico, científico, político, jurídico, institucional) deve receber cuidados de forma equilibrada, mas também que o cuidado para cada aspecto, quando é autentico e não distorcido, sempre deve ter efeito positivo sobre todos os outros: isso é o que acontece num organismo vivo saudável. A não integração do desenvolvimento gera e traz a doença e a morte.

Como que pode ser que tanto faz dizer "Projeto Guaraná", "Projeto Waran
á" ou dizer
Projeto Autonomo Integrado de Eco-etnodesenvolvimento do Povo Sateré-Mawé"?
Guaraná é uma adaptação no português da palavra waraná da lingua Sateré-Mawé. Wará significa explicação. Na significa início. Warana é o início da explicação. A semente de guarana, então, é o início da explicação: quando plantada, já abriga e envolve toda aquela planta potencial que, no seu habitat, irá se desenvolver. Com efeito, a palavra desenvolvimento vem da agricultura!

O Projeto Waraná então não é um projeto de produção e comercialização de sementes secas de guaraná e derivados?
Vender sementes secas de guaraná e derivados foi o ponto de partida, a primeira pedra da construção da autonomia econômica da Nação Sateré-Mawé. Sem autonomia econômica, ou seja sem o autofinanciamento da articulação organizacional do Povo e sem que a subsistencia das famílias seja baseada na produção e não na dependencia do assistencialismo, não pode existir autonomia política. Sem autonomia econômica, as organizações acabam sendo manipuladas e os votos acabam sendo comprados. E sem autonomia política ninguém vai permitir aos Sateré-Mawé sua livre expressão cultural. Sem autonomia política, sem liberdade, a expressão da cultura vira sendo caricatura, violência simbólica, jardim zoológico humano. Por isso, não é errado dizer que o projeto warana também é um projeto de produção e comercializaçao de sementes secas de guaraná e derivados!

Onde está escrito esse projeto?
Para quem sabe ler, está escrito no Porantim, do lado das bonitas historias. Ele é a profecia de Uniawasap'i se realizando nas nossas vidas.
Porém, quando o tuxaua Zuzu fundou o CGTSM, considerando que já na nossa época ninguém mais tinha a coragem de ler o Porantim, proclamou que o Estatuto do CGTSM era o Porantim, traduzido na escrita português para que todo mundo conseguisse entender. As partes programáticas do Estatuto do CGTSM são o projeto Guarana, evoluindo elas mesmas com o andar do tempo.

De onde vêm os recursos do Projeto Guaraná?
Vêm da capacidade de pensar, agir, trabalhar, criar laços de solidariedade entre si e com outros parceiros, espalhada no Povo Sateré-Mawé e coordenada na sua auto-organização.
Eventualmente, a atividade desenvolvida no contexto do projeto pode usufruir de recursos de qualquer fonte (comércio,  prestaçao de serviços, cooperação internacional, empréstimos, subsídios, serviços públicos, colaborações voluntárias e doações), desde que tudo isso seja sem vender ou dar em troca o discernimento, a liberdade, o bem comum ou a Terra.
Angariar e saber administrar recursos faz parte do projeto, mas é muito longe de ser o projeto!

De onde tira seu nome o projeto Vintequilos?

Da aldeia Vintequilos. A qual tira seu nome dos primeiros 20 kg. de pó de Guarana, oriundos do mestre padeiro Alfonso Miquiles de Vida Feliz, que foram comprados por Obadias em 1996 e beneficiados e exportados, via a Guarana Amazonas ltda de Flaviano Guimarães, para a Cooperativa Chico Mendes de Milão, na Itália, a qual, na época, so gerenciava uma loja. A boa recepção dos consumidores fez com que a CTM-Altromercato, distribuidora para boa parte das lojas de comercio justo da Italia, se arriscasse em encomendar 650 kg no ano seguinte, até o comercio justo internacional conseguir absorber em 2001, com a contribuiçao da Guayapi Tropical, toda a produção dos Sateré excedente o autoconsumo. O projeto Guaraná começou com vinte quilos!

O projeto Vintequilos e o Projeto Waran
á então são a mesma coisa?
Não. O projeto Vintequilos é um projeto de cooperação internacional financiado pelo Ministério da Cooperação italiano e administrado pelo ICEI internacional através do ICEI Brasil. Trata-se do segundo projeto do ICEI com os Sateré-Mawé, sendo o primeiro (financiado pela União Europeia e realizado entre 2003 e 2006) focado, pelo que diz respeito aos Sateré-Mawé, na construção da aldeia Vintequilos e no fortalecimento da parceria com as comunidades ribeirinhas de Silves e do baixo Andirá, seguindo o modelo da "Aliança dos Povos da floresta". Ambos tiveram como contraparte local o CGTSM, assessorado pela Acopiama. Esse segundo projeto ICEI, que começou em dezembro 2009 e terminou em abril 2013, e foi denominado "projeto Vintequilos", foi focado principalmente na implementação das unidades de beneficiamento em Parintins e na Escola Agrícola São Pedro, e, mais no geral, no fortalecimento institucional do Consorcio dos Produtores Sateré-Mawé. A colaboração dos Sateré-Mawé como contraparte local no projeto Vintequilos constituiu por isso uma das atividades em que foi se concretizando o Projeto Guaraná.

O que é mesmo "Vintequilos"?

Vintequilos é uma aldeia turística construída logo fora da Terra Indígena, ao longo do Rio Andirá, na fronteira norte da Terra demarcada, sob a direção do técnico indígena Ageu Sateré, valorizando as tecnologias da bio-construção e a arquitetura tradicional Sateré-Mawé. Sua função é dúplice: ser, e se tornar cada vez mais, de um lado centro de excelência e experimentação onde se testam novas tecnologias apropriadas a um etnodesenvolvimento sustentável (paneis solares, pinhão manso para produção de biodiesel e viveiros para a produção de mudas de varias espécies, etc); ser e se tornar cada vez mais, do outro lado, um espaço de agro-silviturismo responsável, onde os consumidores dos produtos do "Nusoken" possam encontrar diretamente os produtores e conhecer a verdadeira Cultura dos Filhos do Waraná.

Porque dizemos que esse è o Portal da "sociedade civil Sateré-Mawé"? Quer dizer que o Sateré-Mawé é um índio civilizado?
Não. Quer dizer que a sociedade Sateré-Mawé escolheu de ser civilizadora!
A sociedade Sateré-Mawé é uma Sociedade sem Estado. É  uma Nação indígena integrada na Nação brasileira. A constituição lhe reconhece o direito a um território para se sustentar e onde viver conforme usos, costumes e tradições comunitários. E o direito de  organizar a comunidade em formas sociais apropriadas para interagir virtuosamente com a sociedade não indígena, na base do fato que cada índio Sateré-Mawé é cidadão brasileiro. Assim, esses cidadãos brasileiros se auto-organizaram e v
ão se auto-organizando num projeto coletivo, de Povo, para dar a contribuição original, especifica e particular deles ao desenvolvimento do Brasil e da Humanidade.

O Consorcio dos Produtores Sateré-Mawé (CPSM) e o Conselho Geral da Tribo Sateré-Mawé (CGTSM) são duas organizações que se disputam a  representação do Povo Sateré-Mawé ou são a mesma organização?
O Consorcio e o Conselho são duas organizações distintas que não poderiam sobreviver e nem sequer teriam legitimidade uma sem a outra:
-O Consorcio organiza as famílias produtoras, sua produção, cuidando da terra; o Conselho organiza a vida social do Povo, através da articulação de suas organizações e comunidades, e a gestão da Reserva Indígena Andirá-Marau como território.
-O Consorcio participa do Conselho; o Conselho deu o mandato para a criação do Consorcio.
-O Consorcio atua como uma entidade autônoma, auxiliar do Conselho, sujeita à fiscalização do mesmo, com patrimônio constituído de recursos próprios; o Conselho è uma pessoa jurídica que abrange e articula as comunidades e as associações, incluindo o Consorcio, que formam a sociedade Sateré-Mawé, e garante assim que o patrimônio coletivo  fique realmente um bem comum.
-O Consorcio sustenta economicamente a autonomia política do Conselho e do Povo; o Conselho defende politicamente as condições prévias para o usufruto dos recursos naturais.
Mas tem mais! Desde que existe etnodesenvolvimento baseado na produção de renda social, Consorcio e Conselho precisam cooperar como duas realidades unidas e distintas para realizar as condições de sustentabilidade jurídica do etnodesenvolvimento.
Com efeito:
- De um lado, se não existisse o Consorcio como organização dos produtores, quem defenderia os direitos dos produtores entre os Sateré-Mawé? A comercialização seria feita por uma entidade, o Conselho, onde quem sustenta a entidade com seu trabalho e seu suor não participaria das decisões! Sendo assim, o próprio desenvolvimento transformaria o Conselho num instrumento de poderes externos para trazer aos Sateré-Mawé padrinhagem e trabalho escravo!
- Do outro lado, se não existisse o Conselho, quem garantiria o direito coletivo sobre a terra? O Consorcio se transformaria num instrumento de pressões externas para fazer de cada roça, cada guaranazal, cada área manejada uma propriedade do produtor -individual ou familiar ou coletiva que seja- e não uma concessão que lhe é feita por parte da organização comunitária da aldeia, nos moldes do direito comunitário tradicional. Dessa forma, o Consorcio, organizando cada vez melhor a produção, a certificação e a rastreabilidade dos produtos, criaria as premissas para o loteamento da Terra indígena, que cessaria de ser bem comum, levando o Povo rumo à disgregação e ao etnocídio!
Por isso, CPSM e CGTSM precisam estar juntos e solidários no Projeto integrado de etnodesenvolvimento, do mesmo jeito que o Patawi e o Porantim coordenam, em harmonia, a vida social dos Sateré-Mawé.

O que é a Livre Academia do Wará?
A Livre Academia do Wará são os sábios anciãos Sateré-Mawé, os nag nia, quando atuam juntos para revivificar o modelo de conhecimento, a epistemlogia sateré-Mawé, e criar as condições para transmiti-lo as novas gerações Sateré-Mawé em beneficio da Humanidade.

Porque a LAW é uma "Academia"?
Na antiguidade, chamou-se de "Academia" um jardim público, um bosque de oliveiras, a árvore símbolo da paz, situado na Grécia, logo fora da "Pólis", da cidade de Atenas. Nesse espaço, consegrado à Sabedoria, a partir do IV século antes de Cristo reuniam-se os filósofos dialogando até encontrar as ideias certas que fundamentavam a vida e a convivencia dos homens.
Do mesmo jeito, os nag nia reunem-se para falar com as belas palavras, inspiradas pelo Waraná,  que espressam aquelas soluções dos problemas e dos conflitos as quais, por ser verdadeiras, criam a harmonia entre as vontades e os desejos de todos. Onde eles se reunem junto com o Waraná Tuchaua, alí se enraiza a ciência e a arte da Política verdadeira, da vida civil da comunidade e da Nação.

Porque a LAW é "Livre"?
Livre porque Wara-na significa "o ponto de inicio do conhecimento", e por isso mesmo não significa "o ponto final do connhecimento". A cultura tradicional não é um conjunto morto de lendas do passado para nos afastar cada vez mais da realidade e do sentido do presente; não é uma cartilha a decorar e rezar, a obedecer de olhos fechados. Pelo contrário, nossa cultura é uma semente a desenvolver em todos seus frutos e virtudes; um olho para enxergar, detalhadamente e profundamente, por todo quanto é lado, o mundo e o futuro até e além seus horizontes. Livres de não rezar nenhuma cartilha!

Porque a LAW é "do Wará"?
Porque cada cultura tem seu caminho, sua maneira de entender os Outros, o Mundo e o Universo. Todas elas deveriam estar á disposição da Humanidade: bens comuns de todos e para todos, caminhos que cada um pode trilhar para se comunicar com todos os outros. Porém cada Povo é responsável por manter limpa a sua trilha. Os Sateré-Mawé são homens como os outros, nada mais. Porém viram Sateré-Mawé quando alguém os reconhece pelo que ele são: os cultivadores e cultores do Waraná.

Está certo dizer que a Livre Academia do Wará quer ser o embrião de uma Universidade Indígena?
Não, isso está errado. A LAW quer ser. e é, uma instituição Sateré-Mawé independente, que não precisa do reconhecimento de nenhum poder público para existir. Mesmo sendo formalizada como pessoa jurídica, ela nunca deverá depender de um consenso não indígena sobre a qualidade e a natureza da sua produção científica. Porque a LAW não representa uma "lei" inglesa, mas precisa ser o espelho de uma "lei" sagrada Sateré-Mawé. Porém, está certíssimo que a LAW promove junto com a UFAM uma licenciatura indígena, e assume o sonho e o desafio de fazer dela o primeiro tijolo rumo a uma Universidade Indígena, negociando com as instituições universitárias formas de ensino, pesquisa, organização do saber que, além de fazer sentido para os Sateré-Mawé, possam se concretizar em titulos académicos aos mais altos níveis para os estudantes e em reconhecimentos formais universais para a Instituição.